Veja história muito anterior à formação de município da região
A história de São José da Boa Vista, no Norte Pioneiro, distante 21 KM de Wenceslau Braz, não começa com a formação do povoado que deu origem ao município. Muito antes da ocupação colonial, a região dos rios Itararé e Pescaria já fazia parte de uma paisagem ocupada e percorrida por diferentes populações indígenas.
A arqueologia realizada no Vale do Itararé demonstra uma longa sequência de ocupações humanas. Pesquisas desenvolvidas pelo Centro de Estudos e Pesquisas Arqueológicas da Universidade Federal do Paraná (CEPA/UFPR), especialmente os trabalhos associados ao arqueólogo Igor Chmyz, identificaram na região vestígios relacionados a diferentes tradições arqueológicas, incluindo conjuntos pré-ceramistas e ceramistas.
Entre essas classificações aparecem as tradições Umbu, Humaitá, Itararé-Taquara e Tupiguarani. É importante esclarecer que essas denominações são categorias arqueológicas baseadas principalmente nos vestígios materiais e não devem ser utilizadas automaticamente como sinônimos dos nomes de povos indígenas atuais.
O grande levantamento arqueológico realizado na área da Linha de Transmissão Ivaiporã–Itaberá III demonstrou que o Vale do Itararé possui uma sequência de ocupações humanas muito antiga. As datações apresentadas no estudo alcançam milhares de anos antes do presente, embora essas datas sejam referentes ao conjunto regional pesquisado e não devam ser atribuídas diretamente ao município de São José da Boa Vista sem uma datação específica.

O Vale do Itararé e as diferentes populações indígenas
A arqueologia regional também registra a presença de grupos associados à tradição Itararé-Taquara, tradicionalmente relacionada ao universo dos Jê meridionais, além de grupos associados à tradição Tupiguarani.
Pesquisas posteriores, incluindo estudos de Lúcio Tadeu Mota, discutiram especificamente a região das cabeceiras do rio Itararé como área importante para compreender a circulação e a presença dos Jê meridionais entre o Paraná e São Paulo.
Ao mesmo tempo, os trabalhos arqueológicos realizados na região registraram diversos sítios relacionados à tradição Tupiguarani.
Portanto, a paisagem do atual município de São José da Boa Vista e de seu entorno deve ser entendida como uma área de ocupação humana de longa duração, marcada por diferentes grupos e diferentes momentos históricos.
Não é possível, apenas pela arqueologia, afirmar que todos esses grupos foram um único povo ou que ocuparam simultaneamente os mesmos lugares. A interpretação deve respeitar cada contexto arqueológico.
A formação de São José do Cristianismo
Séculos depois dessas antigas ocupações indígenas, iniciou-se o processo de colonização que daria origem aos núcleos históricos da região.
A história oficial de São José da Boa Vista registra que, por volta de 1848, o mineiro Domiciano Corrêa Machado, sua esposa Ana Cândida de Farias Machado, filhos e acompanhantes chegaram à região. Segundo a tradição municipal, Domiciano encontrou suas terras entre as barras dos rios Pescaria e Jaguariaíva, tendo percorrido anteriormente o rio Itararé.
Devoto de São José, Domiciano teria doado uma área na confluência dos rios Pescaria e Itararé para a formação de uma povoação denominada São José do Cristianismo.
Em 1870, pela Lei Provincial nº 245, foi criado o Distrito Judiciário de São José do Cristianismo. O primeiro recenseamento geral do Império, realizado em 1872, registrou 3.572 habitantes no núcleo então existente.
A povoação, porém, enfrentou problemas relacionados à malária. Nesse contexto, o fazendeiro Manoel Bernardino da Silva doou uma área situada às margens do rio Pescaria, aproximadamente duas léguas acima do antigo povoado, para a formação de uma nova localidade: São José da Boa Vista.
A transferência para São José da Boa Vista
A nova povoação prosperou rapidamente e passou a atrair moradores de São José do Cristianismo.
Em 29 de março de 1875, pela Lei Provincial nº 421, a sede do Distrito Judiciário foi transferida para São José da Boa Vista.
No ano seguinte, em 24 de março de 1876, a Lei Provincial nº 448 elevou o distrito judiciário à categoria de município.
São José da Boa Vista posteriormente tornou-se comarca e, pela Lei Estadual nº 246, de 14 de dezembro de 1897, foi elevada à categoria de cidade.
Essa sequência é importante porque impede uma confusão comum: São José do Cristianismo e São José da Boa Vista não eram simplesmente dois nomes para o mesmo núcleo desde o início. Houve um antigo povoado junto aos rios Itararé e Pescaria e, posteriormente, a transferência da sede para a nova povoação de Boa Vista.
O século XX e a arqueologia do Vale do Itararé
No século XX, a região passou a ser objeto de pesquisas arqueológicas sistemáticas.
Um dos trabalhos pioneiros foi Notas sobre a arqueologia do Vale do Rio Itararé, publicado em 1968 por Igor Chmyz, Celso Perota, Helena Isabel Müller e Maria Lúcia Fleury da Rocha, ligado ao Centro de Ensino e Pesquisas Arqueológicas da Universidade Federal do Paraná.
Esse trabalho faz parte da fase de consolidação das pesquisas arqueológicas do Paraná e ajudou a colocar o Vale do Itararé dentro do mapa arqueológico do Estado.
Posteriormente, outras pesquisas ampliaram significativamente o conhecimento sobre os sítios arqueológicos existentes no vale e em seus afluentes.
1973: o achado das urnas do Vitorino
É nesse contexto de pesquisas arqueológicas que ocorre um dos episódios mais importantes relacionados ao patrimônio arqueológico de São José da Boa Vista.
Em 1973, agricultores que trabalhavam em uma área rural do município encontraram duas urnas cerâmicas indígenas durante o trabalho de arado. Segundo a documentação posteriormente publicada, as peças foram atingidas pelo arado e uma delas apresentava restos ósseos humanos.
A descoberta teve um desdobramento absolutamente incomum.
Como havia ossos humanos no interior da urna, o objeto foi levado para a delegacia de Wenceslau Braz, cidade vizinha, onde foi instaurado um inquérito diante da suspeita inicial de que pudesse se tratar de uma ocorrência criminal.
A presença da urna na delegacia provocou preocupação entre os presos. Conforme o relato reproduzido por Igor Chmyz e posteriormente publicado pela Folha de Londrina, os detentos chegaram a exigir que a urna permanecesse do lado de fora da delegacia.
Joaquim Gil e a preservação do achado
Foi nesse momento que entrou em cena uma figura fundamental para a preservação da história: Joaquim Gil, professor e historiador de Wenceslau Braz.
Gil reconheceu que os vestígios tinham natureza arqueológica. Depois de seus esclarecimentos, o episódio deixou de ser tratado como suspeita de crime e o inquérito foi encerrado.
A participação de Joaquim Gil é especialmente importante porque ocorreu antes mesmo da investigação arqueológica formal do achado.
Ele não deve ser apresentado como o arqueólogo responsável pela pesquisa. Sua importância foi outra: reconhecer o caráter arqueológico do material e contribuir para que a peça fosse preservada e encaminhada para investigação especializada.
A Folha de Londrina, ao recuperar a história em 2025, atribuiu esse relato ao arqueólogo Igor Chmyz.
Igor Chmyz e o sítio Vitorino 3
O material passou a ser relacionado às pesquisas do arqueólogo Igor Chmyz, um dos principais nomes da arqueologia paranaense e pesquisador ligado ao CEPA/UFPR.
Em sua publicação de 2002, A tradição Tupiguarani no litoral do estado do Paraná, Chmyz registra:
PR-SE-3: Vitorino-3, pesquisado em 1973, no município de São José da Boa Vista, situado a sudeste de Wenceslau Braz.
A documentação acadêmica posterior identifica o Vitorino 3 como um sítio arqueológico associado à Tradição Tupiguarani e informa que o local ainda apresentava estruturas de habitação em terra preta.
Esse dado é particularmente relevante.
As urnas não devem ser entendidas simplesmente como objetos encontrados isoladamente. O sítio apresentava também evidências de ocupação habitacional.
O contexto funerário
A pesquisa arqueológica identificou as urnas como parte de um contexto funerário.
A documentação publicada posteriormente reproduz as duas formas de recipientes identificadas por Chmyz como provenientes do PR-SE-3 – Vitorino 3.
Para o pesquisador, considerando as dimensões da urna, o sepultamento seria interpretado como secundário.
Os restos humanos identificados pertenciam a um indivíduo adulto de idade avançada. A análise mencionada na pesquisa descreve elementos como crânio, mandíbula, vértebras e tíbias, além de alterações ósseas na mandíbula.
Ao lado da urna maior também havia um pequeno recipiente cerâmico com decoração canelada.
Esses elementos dão ao achado um valor arqueológico muito superior ao de uma peça cerâmica isolada.
Vitorino 2, Vitorino 3 e Vitorino 4
Pesquisas e levantamentos posteriores demonstraram que o nome Vitorino aparece associado a mais de um sítio arqueológico no município.
Documentação posterior registra Vitorino 2, Vitorino 3 e Vitorino 4 em São José da Boa Vista, com registros de sítios cerâmicos e líticos associados à Tradição Tupiguarani. Vitorino 3 e Vitorino 4 aparecem, nesse documento posterior, relacionados também a contextos de enterramento.
Entretanto, é necessário fazer uma ressalva importante: não devemos afirmar que o Vitorino 4 corresponde às urnas fotografadas ou que possui necessariamente as mesmas peças do achado de 1973. A documentação consultada não permite fazer essa associação com segurança.
Também existem registros posteriores no Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos com códigos diferentes dos utilizados na publicação de Chmyz. Por exemplo, uma base posterior apresenta Vitorino 2 como PR-SE-4, Vitorino 3 como PR-SE-5 e Vitorino 4 como PR-SE-6.
Essa diferença de numeração deve ser tratada como uma questão documental ainda não esclarecida, e não como erro a ser simplesmente corrigido sem consultar os registros originais.
As pesquisas posteriores
Entre o final da década de 1990 e os anos 2000, novas pesquisas arqueológicas ampliaram o conhecimento sobre a região.
O projeto relacionado à Linha de Transmissão de 750 kV Ivaiporã–Itaberá III realizou levantamentos arqueológicos em grande extensão do território paranaense e paulista.
Os trabalhos envolveram pesquisadores como Igor Chmyz, Eliane Maria Sganzerla, Jonas Elias Volcov, Eloi Bora e Roseli S. Ceccon, entre outros colaboradores.
O projeto identificou numerosos pontos com vestígios arqueológicos e demonstrou a presença regional de diferentes tradições arqueológicas, incluindo Umbu, Itararé, Casa de Pedra e Tupiguarani.
Esse conjunto de pesquisas reforçou a importância do Vale do Itararé como área de ocupação humana de longa duração.
A importância das urnas
As urnas do Vitorino representam um testemunho material de práticas funerárias indígenas.
Seu valor arqueológico não está somente na cerâmica. Está na associação entre o recipiente, os restos humanos, os objetos associados e o contexto arqueológico do sítio.
Quando esse conjunto é preservado, ele permite aos pesquisadores estudar aspectos da vida e da morte de populações que não deixaram documentos escritos.
Por isso, uma urna funerária indígena não deve ser entendida apenas como uma peça antiga. Ela é parte de um contexto cultural e funerário.
A trajetória das peças
Segundo a Folha de Londrina, os fragmentos cerâmicos e a ossada foram posteriormente levados a Curitiba e integraram o acervo do Museu Paranaense.
A mesma reportagem informa que atualmente o material está preservado no Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade Federal do Paraná (MAE-UFPR), em Paranaguá.
Essa trajetória demonstra que o material encontrado acidentalmente em uma lavoura de São José da Boa Vista acabou incorporado ao patrimônio arqueológico institucional do Paraná.
A memória preservada pela família Gil
As fotografias relacionadas ao episódio também possuem importância histórica.
Na reportagem publicada pela Folha de Londrina em 17 de junho de 2025, as imagens foram creditadas como:
“Acervo da família Gil/Trick Fotos Antigas de W. Braz.”
Esse crédito deve ser preservado quando forem utilizadas as fotografias publicadas por aquela reportagem.
No caso das fotografias que hoje circulam fora desse contexto, é importante não atribuir automaticamente a mesma autoria sem verificar sua procedência individual. O correto é distinguir entre a fotografia publicada pela imprensa e creditada ao acervo da família Gil e outras cópias ou reproduções cuja origem ainda precise ser documentada.
A importância para o patrimônio do Norte Pioneiro
A história das urnas do Vitorino é importante não apenas para São José da Boa Vista.
Ela ajuda a demonstrar a profundidade histórica do patrimônio arqueológico do Norte Pioneiro do Paraná.
A região dos rios Itararé e Pescaria possui registros de ocupações humanas muito anteriores à formação dos atuais municípios. As pesquisas arqueológicas revelam diferentes tradições e diferentes momentos de ocupação.
São José do Cristianismo surgiu posteriormente, dentro do processo de colonização do século XIX.
São José da Boa Vista desenvolveu-se a partir de uma nova povoação formada às margens do rio Pescaria e tornou-se município em 1876.
Mas, sob a cidade, as lavouras e as propriedades rurais, permanecem vestígios de uma história muito mais antiga.
Em 1973, uma dessas histórias voltou à superfície quando o arado atingiu as urnas do Vitorino.
O que inicialmente pareceu uma possível ocorrência criminal acabou revelando um vestígio arqueológico de grande importância.
A atuação de Joaquim Gil, ao reconhecer a natureza arqueológica da descoberta, e posteriormente o trabalho de Igor Chmyz e de outros pesquisadores ligados ao CEPA/UFPR foram fundamentais para que aquele material pudesse ser estudado e preservado.
Mais de cinquenta anos depois, o episódio continua sendo lembrado e pesquisado.
As urnas permanecem como testemunhos materiais de uma história indígena que antecede em muito a formação de São José do Cristianismo e de São José da Boa Vista.
E talvez essa seja a maior importância desse achado: lembrar que a história do Norte Pioneiro não começa com a abertura das primeiras fazendas ou com a fundação das cidades.
Ela começa muito antes.
Começa com os povos que ocuparam, percorreram, transformaram e deram significado a essa paisagem.

Referências principais
CHMYZ, Igor. A tradição Tupiguarani no litoral do estado do Paraná. 2002. A obra registra o sítio PR-SE-3, Vitorino-3, pesquisado em 1973, no município de São José da Boa Vista.
CHMYZ, Igor et al. Notas sobre a arqueologia do Vale do Rio Itararé. 1968. Trabalho pioneiro do CEPA/UFPR sobre a arqueologia regional.
CHMYZ, Igor et al. A Arqueologia da Área da LT 750kV Ivaiporã–Itaberá III – Paraná–São Paulo. Trabalho de síntese das pesquisas arqueológicas posteriores realizadas na região.
SPITZ, Alessandra. Pesquisa acadêmica sobre práticas funerárias indígenas, utilizada pelo IPHAN, contendo a documentação do sítio Vitorino 3 e a reprodução das urnas estudadas por Chmyz.
IPHAN. Documentação arqueológica e registros relacionados aos sítios do Paraná.
PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO JOSÉ DA BOA VISTA. Histórico municipal, incluindo São José do Cristianismo, a formação de São José da Boa Vista e a legislação de transferência e criação do município.
MOTA, Lúcio Tadeu. Estudos sobre a passagem e presença dos Jê meridionais pelo Paraná e São Paulo.
FOLHA DE LONDRINA. Celso Felizardo. Urna indígena com ossada quase causou rebelião em delegacia no Norte Pioneiro. 17 de junho de 2025.
Crédito das fotografias publicadas pela Folha de Londrina: Acervo da família Gil / Trick Fotos Antigas de W. Braz.
Marcos Almeida
Pesquisador independente e divulgador do patrimônio histórico e natural do Norte Pioneiro do Paraná.
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