Relatos preservados por gerações revelam história marcada pela doença, pobreza, preconceito e isolamento
Há histórias que não foram registradas nos grandes jornais, nos documentos oficiais ou nos livros de medicina. Sobreviveram de outra maneira: pela memória. Foram contadas por pais aos filhos, avós aos netos e, geração após geração, chegaram até pesquisadores que se dedicaram a registrar a história de suas comunidades.
Uma dessas histórias está relacionada aos antigos doentes de lepra do Povoado dos Barbosas, localidade que, no início do século XX, pertencia administrativamente a São José da Boa Vista, no Norte Pioneiro, e que posteriormente daria origem ao atual município de Santana do Itararé.
É uma história marcada pela doença, pela pobreza, pelo preconceito e pelo isolamento social. E, segundo a tradição oral registrada pelo historiador Sirineu Mota Pereira, também por um episódio de extrema crueldade: o incêndio das casas onde viviam pessoas atingidas pela doença.

UMA DOENÇA CERCADA PELO MEDO
A doença que atualmente conhecemos como hanseníase era chamada de “lepra” nos documentos e na linguagem popular daquele período. Também aparecem em registros antigos expressões como “morphéa” e “morféticos”.
Hoje se sabe que a hanseníase é uma doença infecciosa causada pela bactéria Mycobacterium leprae, que afeta principalmente a pele e os nervos periféricos. Quando não diagnosticada e tratada, pode provocar perda de sensibilidade, fraqueza muscular, lesões e incapacidades.
A realidade, entretanto, era muito diferente há mais de cem anos. O conhecimento médico era limitado, não existia o tratamento eficaz disponível atualmente e o medo da doença alimentava o afastamento e a discriminação.
Atualmente, a hanseníase tem cura e o tratamento é oferecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A Poliquimioterapia Única utiliza rifampicina, dapsona e clofazimina e, conforme a classificação da doença, dura seis ou 12 meses. O acompanhamento é normalmente ambulatorial e, com o início adequado do tratamento, o paciente deixa de transmitir a doença ainda no começo da terapia.

OS DOENTES DE BARBOSAS
Segundo o historiador Sirineu Mota Pereira, autor de Bruacas e Bugigangas – As origens da Colonização de Santana do Itararé e Região, havia numerosos doentes de lepra vivendo no antigo Povoado dos Barbosas.
O episódio é registrado nas páginas 194 e 195 da obra. O próprio autor preserva uma memória transmitida por antigos moradores, deixando claro que se trata de uma tradição oral e não de uma notícia contemporânea apresentada como prova documental.
De acordo com essa memória, os doentes viviam afastados do restante da população, em pequenas casas e ranchos. Muitas dessas construções eram extremamente simples, algumas cobertas de sapé.
Formou-se, assim, um núcleo de moradias onde pessoas atingidas pela doença permaneciam separadas da comunidade.

O PRECONCEITO TAMBÉM FAZIA PARTE DA DOENÇA
O sofrimento não era apenas físico.
Naquele período, o medo da lepra produzia discriminação e isolamento social. Os doentes eram afastados do convívio com os demais moradores e, segundo a tradição registrada por Sirineu, essa separação poderia continuar até mesmo depois da morte.
O livro relata que os doentes não eram enterrados juntamente com os demais moradores, existindo um espaço separado para seus sepultamentos.
Para quem era diagnosticado com a doença, a consequência poderia ser a perda do convívio social, do trabalho, da família e da própria dignidade.

A SOBREVIVÊNCIA POR MEIO DA ESMOLA
Sem condições de trabalhar e vivendo afastados da comunidade, muitos dependiam da ajuda de outras pessoas.
Segundo o relato preservado por Sirineu Mota Pereira, alguns doentes saíam para pedir esmolas e alimentos.
Essa informação encontra correspondência em uma fonte produzida ainda naquele período. Em 1922, um relatório de viagem pelo Norte Pioneiro descreveu a passagem pelo antigo Barbozas.
O viajante encontrou uma sequência de casas extremamente pobres e precárias. Crianças se aproximavam pedindo esmolas. Mais adiante, encontrou pessoas identificadas, utilizando a terminologia médica da época, como “morphéticos”, sentadas nas portas das casas, nas janelas e debaixo das árvores.
O viajante chegou a perguntar se aquele local seria um lazareto. A resposta foi negativa.
O detalhe é relevante porque indica que aquele conjunto de moradias não era necessariamente uma instituição oficial de isolamento, mas um núcleo onde pessoas atingidas pela doença viviam em condições extremamente precárias.

1917: O EPISÓDIO MAIS TRÁGICO
É nesse cenário que surge o episódio mais doloroso preservado pela memória de Barbosas.
Segundo os relatos registrados por Sirineu Mota Pereira, os doentes teriam solicitado às lideranças de São José da Boa Vista que fossem encaminhados para Curitiba, onde poderiam receber atendimento e permanecer em um local destinado às pessoas atingidas pela doença.
O historiador situa o acontecimento, provavelmente, em 1917.
O período coincide com mudanças importantes na política sanitária do Paraná. Naqueles anos, médicos e autoridades procuravam identificar os doentes e estabelecer formas de isolamento e tratamento para a lepra.
Entre os nomes ligados a esse processo estava o médico Heráclides César de Souza-Araújo, que realizou levantamentos sobre a doença no Estado e participou da organização de medidas de profilaxia.
Para as autoridades da época, o isolamento era visto como uma forma de proteger a população. Para os doentes, porém, significava afastamento de suas famílias e comunidades.

O INCÊNDIO DOS RANCHOS
Segundo a tradição oral registrada no livro de Sirineu, depois que os doentes deixaram Barbosas, teria acontecido uma tragédia.
Os ranchos e casebres onde aquelas pessoas viviam teriam sido incendiados.
O relato atribui a ação a homens ligados ao então chefe político José Felicio Pereira, conhecido como Juca Felício.
As pequenas casas teriam sido consumidas pelo fogo. Ainda segundo essa memória, alguns dos doentes retornaram posteriormente e encontraram suas moradias destruídas. Seus poucos pertences também teriam desaparecido.
Sem casa, abrigo e bens, aqueles que já haviam sido afastados da sociedade pela doença teriam perdido também o pouco que possuíam para sobreviver.
O episódio permanece como um dos relatos mais dolorosos preservados pela memória histórica de Santana do Itararé.
ENTRE A MEMÓRIA E A DOCUMENTAÇÃO
Existe, porém, uma importante cautela histórica.
Até o momento, não foi encontrada uma ordem escrita ou uma notícia contemporânea comprovando que Juca Felício tenha determinado o incêndio das casas.
Por isso, o episódio deve ser apresentado como uma tradição oral registrada por Sirineu Mota Pereira e preservada na memória de antigos moradores.
O próprio historiador apresenta mais de uma versão sobre o acontecimento. Uma delas responsabiliza Juca Felício e seus comandados pela destruição das casas. Outra procura defendê-lo, afirmando que sua intenção teria sido retirar os doentes daquele local e encaminhá-los para atendimento.
As duas versões são preservadas na obra.
Essa distinção é fundamental para que a história seja contada com responsabilidade: a presença de pessoas atingidas pela lepra em Barbosas encontra respaldo em documentos históricos, enquanto a autoria e as circunstâncias do incêndio permanecem no campo da memória oral.
A MEMÓRIA DO PADRE JOÃO LUCIANO RIBEIRO
Outro personagem presente na tradição popular é o padre João Luciano Ribeiro.
Segundo relatos preservados por antigos moradores, o sacerdote teria ficado profundamente indignado com a situação enfrentada pelos doentes.
A memória popular afirma que ele teria amaldiçoado o distrito, dizendo que o lugar permaneceria abandonado durante décadas e seria tomado por cabritos.
A narrativa, porém, pertence ao patrimônio oral da comunidade e não deve ser confundida com uma explicação histórica comprovada para a evolução do distrito.
O ISOLAMENTO DA LEPRA NO PARANÁ
A história de Barbosas precisa ser compreendida dentro de um contexto mais amplo.
Durante as primeiras décadas do século XX, o Paraná começou a estruturar uma política específica de combate à lepra. Entre 1916 e 1917, os estudos de Heráclides César de Souza-Araújo ajudaram a dimensionar a presença da doença no Estado.
A política sanitária da época defendia o isolamento de muitos pacientes como forma de impedir a transmissão e proteger a população.
O modelo, porém, também produziu profunda segregação. Pessoas doentes eram afastadas de suas famílias e comunidades e encaminhadas para instituições específicas.
Foi nesse contexto que surgiram e se fortaleceram os antigos leprosários.
O LEPROSÁRIO SÃO ROQUE
Em 1926, foi inaugurado em Piraquara o Leprosário São Roque, que posteriormente passou a ser o Hospital de Dermatologia Sanitária do Paraná.
O estabelecimento tornou-se praticamente uma pequena cidade, com hospital, casas para pacientes, igreja, escola, comércio e outras estruturas.
O modelo representava a política sanitária predominante daquele período: concentrar e isolar os doentes em comunidades específicas.
Hoje, entretanto, esse modelo pertence à história da medicina. O tratamento da hanseníase é realizado principalmente de forma ambulatorial e o isolamento compulsório não faz parte do tratamento atual.
DE DOENTES ISOLADOS A PESSOAS ACOLHIDAS
Ao longo do século XX, a medicina avançou. Novos medicamentos foram desenvolvidos e o tratamento tornou-se cada vez mais eficaz.
Hoje, a hanseníase é uma doença curável. O SUS oferece gratuitamente tratamento e acompanhamento, e o paciente normalmente não precisa ser internado.
Com o tratamento adequado, a pessoa completa o esquema indicado e recebe alta por cura. O desafio atual, portanto, não é apenas tratar a doença, mas também combater o preconceito que historicamente acompanhou a hanseníase.
HUMANITAS: UMA OUTRA HISTÓRIA NO NORTE PIONEIRO
No Norte Pioneiro do Paraná, outra história relacionada à hanseníase merece ser lembrada.
Em São Jerônimo da Serra, a Associação Filantrópica Humanitas desenvolveu um trabalho voltado ao atendimento de pessoas atingidas pela hanseníase e também de pacientes com outras doenças dermatológicas.
A história da instituição está ligada ao trabalho do padre japonês Haruo Sasaki, que encontrou pessoas atingidas pela doença vivendo em condições de extrema pobreza e abandono.
Em vez de afastá-las, o trabalho buscou oferecer atendimento, tratamento, acolhimento e dignidade. Religiosas japonesas também participaram dessa história.
A instituição ficou conhecida por receber pessoas de diferentes localidades e pelo trabalho filantrópico desenvolvido ao longo dos anos.
A Humanitas representa, nesse sentido, uma mudança profunda de mentalidade: onde antes havia afastamento, passou a existir acolhimento; onde havia medo, passou a existir conhecimento; onde havia abandono, passou a existir cuidado.
UMA MEMÓRIA QUE NÃO PODE SER APAGADA
Mais de um século separa os doentes de Barbosas dos pacientes atendidos atualmente.
Naquele tempo, uma doença podia significar isolamento, pobreza e exclusão. Segundo a tradição oral registrada por Sirineu Mota Pereira, homens, mulheres e crianças viveram afastados da comunidade, em ranchos e casebres, dependendo de esmolas para sobreviver.
E, segundo essa mesma memória, suas casas teriam sido queimadas depois que foram retirados do povoado.
Não sabemos, documentalmente, quem ordenou o incêndio. Mas existem registros históricos que comprovam a presença de pessoas atingidas pela lepra em Barbosas, inclusive o relatório de 1922 que descreve moradores identificados como “morphéticos” e crianças pedindo esmolas.
É justamente nesse ponto que a história ganha uma dimensão maior.
Aquelas pessoas não eram apenas “leprosos”. Eram moradores do Norte Pioneiro. Tinham famílias, nomes, histórias e seus poucos bens. Tinham, acima de tudo, o direito de viver com dignidade.
A doença lhes tirou muito. O preconceito tirou ainda mais.
PARA QUE A HISTÓRIA NÃO SE REPITA
A memória dos doentes de Barbosas também é uma homenagem aos profissionais de saúde que, no passado e no presente, dedicaram suas vidas ao cuidado das pessoas atingidas pela hanseníase.
Aos médicos e pesquisadores que enfrentaram uma doença cercada pelo medo; aos enfermeiros, técnicos e agentes de saúde; aos profissionais envolvidos na prevenção, tratamento e reabilitação; e aos religiosos e voluntários que escolheram acolher aqueles que tantas vezes foram rejeitados.
É também uma homenagem aos próprios doentes de Barbosas: aos homens, mulheres e crianças que viveram afastados, que precisaram pedir esmolas, que foram separados da sociedade e, segundo a memória preservada por seus descendentes, que retornaram para encontrar apenas as cinzas de suas próprias casas.
Que essa história permaneça viva na memória de Santana do Itararé e do Norte Pioneiro do Paraná.
Hoje, a hanseníase tem cura. O que não pode voltar a existir é uma sociedade que abandone o doente.
A memória dos doentes de Barbosas não deve ser uma história de vergonha. Deve ser uma história de humanidade, dignidade e aprendizado.
Porque uma doença pode ser tratada pela medicina. O preconceito, porém, precisa ser combatido por toda a sociedade.
Reportagem: Marcos Almeida/Especial para o Npdiario
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