Mulheres do Café fazem história em Tomazina (assista)

Trabalho, união e superação reforçam protagonismo feminino na cafeicultura do Norte Pioneiro

O bairro rural do Matão, no município de Tomazina, ganhou realce com mais uma edição do Leilão Mulheres do Café Matão. O evento reuniu produtoras, compradores e representantes do setor cafeeiro em um encontro dedicado à valorização e à comercialização dos cafés especiais produzidos na região.

O grande destaque foi o arremate de uma saca de café de 30 quilos pelo valor de R$ 31. 500, que equivale a R$ 63 mil por saca de 60 kg. O resultado foi celebrado com muita emoção pelas participantes. Um detalhe tornou a conquista ainda mais simbólica: o café foi produzido por uma mulher e arrematado por outra, representando o reconhecimento do trabalho feminino em toda a cadeia produtiva.

Um lote de 30 quilos de café especial produzido pela cafeicultora Josiane Erica S. Diniz, de Tomazina, foi arrematado por R$ 31.500 pela empresária Ana Cláudia de Oliveira (foto de blusa laranja), CEO da Coffeebe, empresa sediada em Varginha, no Sul de Minas Gerais. O lance foi o maior registrado durante o 4º Leilão de Cafés Especiais das Mulheres do Café de Matão nesta sexta-feira, dia 30,, alcançando o equivalente a R$ 1.050 por quilo.

Paranaense e à frente da Coffeebe, empresa que atua há três anos na compra, venda e exportação de café, Ana Claudia viu no leilão uma oportunidade de reconhecer a qualidade da produção local e valorizar o trabalho das mulheres na cafeicultura. O arremate também aproxima suas origens paranaenses de sua atuação empresarial em Minas Gerais.

O resultado emocionou Josiane, que já conhecia a trajetória de Ana Claudia e sua atuação na valorização das mulheres no setor. Para a produtora, o reconhecimento ganhou um significado ainda maior por ter partido de outra mulher.

Por trás desse resultado existe uma trajetória construída ao longo de muitos anos, marcada por desafios, aprendizado, organização e perseverança.

A força de uma caminhada coletiva – O projeto Mulheres do Café do Norte Pioneiro foi criado em maio de 2013, sob a coordenação do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná), com o objetivo de incentivar as mulheres cafeicultoras a investir na produção de cafés especiais, agregando qualidade e valor comercial ao produto.

A iniciativa surgiu a partir da percepção de que, embora as mulheres desempenhassem funções fundamentais nas propriedades cafeeiras, sua participação nas capacitações técnicas ainda era pequena. Muitas já trabalhavam nos terreiros, cuidavam da organização da colheita e participavam diretamente das atividades da lavoura, mas precisavam conquistar mais espaço na tomada de decisões e na comercialização.

O trabalho desenvolvido pelo IDR-Paraná passou a oferecer capacitação técnica de acordo com cada etapa do ciclo produtivo, além de formação em liderança, organização e valorização feminina dentro das famílias e da comunidade.

A caminhada exigiu dedicação, mudanças de comportamento e superação de dificuldades. A proposta era mostrar que a participação das mulheres poderia transformar a qualidade da produção e ampliar as oportunidades de renda para as famílias agricultoras.

Como destacou a produtora Nira Souza, uma das referências do grupo, a união entre as mulheres tornou o caminho mais forte e permitiu alcançar resultados que individualmente levariam muito mais tempo.

Mercado internacional – Os primeiros resultados expressivos começaram a aparecer em 2015, quando três produtoras do Norte Pioneiro conquistaram posições de destaque no Concurso Café Qualidade Paraná.

Naquele período, o trabalho também avançou na área comercial. As cafeicultoras estabeleceram parceria com uma empresa exportadora e comercializadora de cafés especiais da região de Ourinhos, no interior de São Paulo. No primeiro ano da parceria, cafés produzidos em Matão chegaram a mercados da Austrália, dos Estados Unidos e de países europeus.

A comercialização de cafés especiais passou a representar uma nova oportunidade para as pequenas propriedades rurais, permitindo que a qualidade dos grãos alcançasse maior valorização no mercado.

Em 2021, uma reportagem da Agência Estadual de Notícias indicou que a iniciativa já reunia mais de 250 mulheres, distribuídas por diferentes grupos de municípios do Norte Pioneiro. Esse número se refere à abrangência regional da iniciativa, e não somente às produtoras de Matão.

Já em novembro de 2024, o IDR-Paraná registrou que o grupo Mulheres do Café de Matão era formado por 24 produtoras. Na ocasião, foi realizado o segundo Cupping e Leilão de Cafés Especiais, com 23 lotes avaliados e comercializados. Os cafés leiloados apresentaram pontuações superiores a 80 pontos nos critérios da Specialty Coffee Association (SCA).

A iniciativa também fortaleceu a organização das produtoras em torno da Associação de Produtores e Produtoras de Cafés Especiais de Matão (Approcem), aproximando as cafeicultoras de cafeterias, torrefações, cooperativas e empresas compradoras.

Conquista representa toda a região – A trajetória das Mulheres do Café também fortalece a identidade da cafeicultura regional. Em 25 de setembro de 2012, o Café do Norte Pioneiro do Paraná conquistou o registro de Indicação de Procedência concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), abrangendo 45 municípios das regiões administrativas do Norte Pioneiro e do Norte do Paraná.

Esse reconhecimento valoriza a origem territorial, a reputação e a qualidade dos cafés produzidos na região.

O trabalho das mulheres de Matão representa uma parte importante dessa história. A combinação entre conhecimento técnico, organização, dedicação e valorização da agricultura familiar abriu novas oportunidades para produtoras que passaram a conquistar reconhecimento em concursos e mercados especializados.

O leilão e o arremate de R$ 63 mil representam mais um capítulo dessa trajetória. O valor anunciado chama a atenção, mas a conquista vai muito além da negociação comercial.

Por trás de cada saca existem famílias produtoras, dedicação diária, conhecimento acumulado e mulheres que conquistaram espaço e reconhecimento em uma atividade da qual sempre fizeram parte.

A história das Mulheres do Café de Matão demonstra que união, persistência e valorização do trabalho podem transformar a realidade de uma comunidade. Uma conquista que fortalece Tomazina e projeta o nome do Norte Pioneiro do Paraná no cenário dos cafés especiais.

Reportagem: Marcos Almeida/Especial para o Npdiario

 

 

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