Debate na UENP marca o Dia Mundial do Solo
O papel estratégico do solo — ainda pouco valorizado nas políticas públicas brasileiras — foi o centro da audiência pública realizada no Dia Mundial do Solo, no campus da Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), em Cornélio Procópio. Especialistas destacaram que a saúde das cidades depende diretamente da conservação do solo e da água, fundamentais para regular o clima, garantir a produção de alimentos, assegurar a disponibilidade hídrica e promover qualidade de vida.
A audiência marcou a abertura do I Encontro de Educação em Solos do Paraná, alinhado ao tema definido pela ONU para 2025: “Solos saudáveis para cidades saudáveis”. O evento reuniu professores, pesquisadores, estudantes, agricultores, técnicos e representantes de instituições públicas como IDR-Paraná, SEAB, Adapar, Paraná Mais Orgânico e Amunopi.
Organizado em parceria com o Núcleo Estadual do Paraná da Sociedade Brasileira de Ciência do Solo (NEPAR-SBCS), o encontro foi presidido pelo deputado estadual Luiz Claudio Romanelli, que ressaltou a necessidade de fortalecer políticas públicas voltadas à conservação.
“O solo ainda não recebe a atenção que merece, apesar de ser decisivo para a segurança alimentar e hídrica. Nosso compromisso é construir soluções e proteger esse recurso essencial”, afirmou.
Solo, água e clima: um sistema interligado
O engenheiro agrônomo e diretor do NEPAR-SBCS, Dr. Oromar João Bertol, destacou que cerca de 95% dos alimentos consumidos no mundo têm origem no solo, conforme dados da FAO. Além de essencial para a segurança alimentar, o solo saudável também armazena e purifica a água e desempenha papel central na mitigação das mudanças climáticas.
“Em apenas um metro de profundidade, o solo pode armazenar três vezes mais carbono do que a atmosfera”, explicou.
No entanto, Bertol alertou que, no Paraná, o principal processo de degradação é a erosão hídrica, que remove as camadas superficiais do solo — justamente as mais férteis e importantes para retenção de água. Um mapa apresentado pelo pesquisador mostrou que as chuvas no estado têm capacidade erosiva de quatro a cinco vezes maior que as da Europa, podendo chegar a 20 vezes em algumas regiões.
Apesar dos riscos, ele reforçou que o Paraná dispõe de conhecimento técnico para enfrentar o problema, citando práticas como plantio direto, terraceamento e plantio em nível.
“A chuva é aliada, desde que o solo esteja preparado para infiltrar e armazenar água”, destacou.
Bertol também lembrou que 70% dos empregos no mundo dependem direta ou indiretamente da água, o que torna o manejo adequado do solo ainda mais estratégico para o desenvolvimento econômico.
Agricultura sustentável e alerta global
O professor Felipe Bonini da Luz, da Universidade Federal do Paraná, trouxe exemplos históricos para mostrar como a degradação do solo pode levar ao colapso de sociedades — caso do Dust Bowl nos Estados Unidos, na década de 1930.
“Onde o solo não foi cuidado, a sociedade desapareceu”, afirmou.

Ele destacou os serviços ecossistêmicos prestados pelo solo, incluindo produção de alimentos, regulação climática e abrigo da biodiversidade. Segundo o professor, apenas 34% dos solos brasileiros são considerados saudáveis, enquanto 38% apresentam sinais de degradação.
No Paraná, apesar do pioneirismo no plantio direto, ainda há falhas importantes, especialmente no cultivo de inverno. Muitas áreas de soja seguem sem cobertura vegetal na entressafra.
“Solo descoberto é solo vulnerável. Perde água, nutrientes e biodiversidade”, alertou.
O professor também mencionou a criação da Aliança Brasileira de Saúde do Solo, em 2024, e o lançamento do livro “Saúde do Solo em Ecossistemas Tropicais”, voltado a estratégias de adaptação às mudanças climáticas.
I Encontro de Educação em Solos do Paraná mobiliza estudantes e projetos acadêmicos
A programação da tarde foi dedicada ao I Encontro de Educação em Solos do Paraná, com estandes interativos do projeto Solo na Escola, que receberam estudantes para atividades práticas. Participaram universidades do Paraná e de São Paulo, com iniciativas voltadas a públicos de todas as idades, especialmente crianças do ensino fundamental.
Segundo a coordenadora do evento, professora Jully Gabriela Retzlaf de Oliveira, o objetivo é aproximar a comunidade do tema e integrar metodologias de educação ambiental.
“Só se conserva aquilo que se conhece. Ensinar desde cedo a relação do solo com a água, o clima e a produção de alimentos é essencial para formar cidadãos conscientes”, afirmou.
As crianças observaram diferentes tipos de solo com lupas, analisaram cores e texturas e participaram de oficinas de pintura feitas com pigmentos naturais.
“É muito legal usar solo como tinta. Ainda não sei o que vou desenhar, mas estou achando tudo divertido”, disse a estudante Lívia Vieira de Campos, de 9 anos.
No encerramento, coordenadores dos projetos participaram de uma mesa-redonda e anunciaram a intenção de tornar o encontro itinerante, com atividades em diferentes regiões do Paraná nos próximos anos.
A mesa oficial da audiência contou com a presença do reitor da UENP, professor Fábio Antonio Néia Martini; da diretora do campus, professora Vanderléia da Silva Oliveira; do diretor do NEPAR-SBCS, Oromar João Bertol; da professora Jully Gabriela Retzlaf de Oliveira; e do professor Felipe Bonini da Luz.

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