Livro de Moro é contra ALIANÇA com FLÁVIO

Obra atribuiu ao pai iniciativas para enfraquecer combate à corrupção e favorecer filho no caso das chamadas rachadinhas agora virou arma eleitoral 

A Pedido.

O livro em que Sérgio Moro atribuiu a Jair Bolsonaro iniciativas para enfraquecer o combate à corrupção e favorecer  no caso das chamadas rachadinhas virou arma eleitoral nesta terça-feira, 14 de julho. O Partido dos Trabalhadores (PT) e Requião Filho (PDT) recuperaram as declarações justamente quando Moro disputa o Governo do Paraná pelo Partido Liberal (PL), com Flávio Bolsonaro como presidenciável de seu palanque.

A contradição não depende de uma interpretação petista. Está registrada por Moro em Contra o Sistema da Corrupção, autobiografia publicada em 2021 pelo selo Primeira Pessoa, da Editora Sextante. A edição impressa tem 288 páginas.

No livro, Moro relata que o governo comemorou a decisão do então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, que suspendeu investigações criminais baseadas em relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) obtidos sem autorização judicial. A medida alcançou a investigação sobre Flávio Bolsonaro e Fabrício Queiroz.

Moro escreveu que a decisão era “temerária para o país” e afirmou que o sistema de prevenção à lavagem de dinheiro não poderia ser desmontado para “salvar da lei o filho de alguém”. Segundo seu relato, Jair Bolsonaro orientou o então ministro a não atuar pela reversão da medida: “Se não vai ajudar, então não atrapalhe”.

A obra também relaciona as decisões de Jair Bolsonaro sobre o pacote anticrime às dificuldades judiciais enfrentadas pelo filho. Moro escreveu que as “encrencas” de Flávio Bolsonaro não justificavam a recusa presidencial em vetar mudanças que restringiam prisões preventivas, acordos de colaboração e outros instrumentos defendidos pelo então ministro.

Os trechos foram reproduzidos de forma consistente por Folha de S.Paulo, UOL, Veja, O Globo e Blog do Esmael desde o lançamento do livro.

Questionado se mantém o que escreveu, Moro não retirou formalmente as afirmações nem apresentou nova versão sobre os episódios. O senador classificou os conflitos como divergências que ficaram no passado e sustentou que a aliança atual se justifica pela oposição ao presidente Lula (PT).

Moro afirmou que acompanhou Jair Bolsonaro nos debates presidenciais de 2022, mesmo sem ter recebido apoio do ex-presidente em sua campanha para o Senado. Acrescentou que permaneceu ao lado do PL na oposição ao governo federal e declarou que Flávio Bolsonaro seria o nome com condições de derrotar o PT. “Divergências do passado não impedem a construção do futuro”, disse.

A resposta explica a escolha eleitoral, mas não resolve a contradição documental. O livro não descreve apenas uma diferença partidária ou uma discussão administrativa. Moro escreveu que o governo atuou contra estruturas de prevenção à lavagem de dinheiro para beneficiar o filho do presidente. Agora, o autor pede que o eleitor trate essa avaliação como assunto superado sem dizer qual parte de seu relato perdeu validade.

A aproximação ocorreu por etapas. Moro deixou o Ministério da Justiça em abril de 2020 acusando Jair Bolsonaro de tentar interferir na Polícia Federal. Publicou as críticas em 2021, aproximou-se novamente do ex-presidente no segundo turno de 2022 e ingressou no PL em março de 2026, com apoio de Flávio Bolsonaro e do presidente nacional da legenda, Valdemar Costa Neto.

Em 29 de maio, Moro lançou sua pré-candidatura ao Palácio Iguaçu em Curitiba ao lado de Flávio Bolsonaro, Deltan Dallagnol (Novo) e Filipe Barros (PL). Os discursos recuperaram a Lava Jato o combate à corrupção e a segurança pública como eixos da chapa para o governo e para as duas vagas paranaenses no Senado.

A hostilidade anterior também partiu de Flávio Bolsonaro. Em artigo publicado em 2022, o senador responsabilizou a conduta de Moro pelas decisões que anularam processos contra Lula e acusou o ex-juiz de abusos e combinações ilegais com integrantes do Ministério Público Federal e do Coaf. Os ataques recíprocos foram substituídos por uma aliança construída para as eleições de 2026.

Flávio Bolsonaro não foi condenado no caso das rachadinhas. A denúncia criminal foi arquivada depois que o Superior Tribunal de Justiça (STJ) e o STF anularam provas centrais da investigação. Em março de 2026, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro rejeitou outra tentativa de retomar uma ação baseada nas provas remanescentes. Flávio Bolsonaro sempre negou participação em irregularidades.

Esse resultado judicial não apaga o conteúdo político do livro. Moro não escreveu que Flávio Bolsonaro havia sido condenado. Afirmou que Jair Bolsonaro tomou decisões para protegê-lo e enfraquecer mecanismos anticorrupção. É essa autoria direta que dá força à ofensiva dos adversários: o ataque não nasce de um documento do PT, mas da autobiografia do próprio pré-candidato do PL.

A contradição atinge o ponto mais sensível da candidatura de Moro. Seu capital político foi construído sobre a promessa de aplicar a mesma régua a aliados e adversários. Ao tratar as acusações registradas no livro apenas como divergências passadas, ele troca a explicação sobre os fatos por uma justificativa eleitoral sobre o presente.

Não existe pesquisa pública que meça perda de votos causada especificamente pelo resgate do livro. O efeito comprovável, por enquanto, é discursivo: Requião Filho e o PT ganharam material para questionar a coerência do palanque formado por Moro, Flávio Bolsonaro, Deltan Dallagnol e Filipe Barros.

A Folha registrou em uma reportagem a resposta de Moro, mas não publicou manifestação específica de Flávio Bolsonaro, Deltan Dallagnol, Filipe Barros ou da direção estadual do PL sobre os trechos recuperados. As campanhas precisam esclarecer se concordam com o relato, se o consideram falso ou se também entendem que uma acusação dessa gravidade perdeu importância por causa da eleição.

Para o eleitor lavajatista do Paraná, a pergunta deixou de ser se Moro e Flávio Bolsonaro fizeram as pazes. A questão é saber qual versão vale: a do autor que acusou o então governo Bolsonaro de agir para proteger o filho do presidente ou a do pré-candidato que considera suficiente declarar o conflito encerrado

Texto: Esmael Moraes

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