Qual o papel de intervenção social da comunicação nos espaços do poder público? Por que para muitas prefeituras a comunicação ainda é vista como prática meramente funcional, marqueteira e com objetivo apenas de estreitar a relação do prefeito e secretários com a imprensa?
Essas e outras perguntas o Jornalista, Educomunicador e Professor Tiago Silvio Dedoné(foto), uma das referências em comunicação pública do Paraná, respondeu durante o V Global Mil Week e VII Encontro Brasileiro de Educomunicação – congresso internacional realizado pelo Unesco, numa parceria com a Universidade de São Paulo (USP), entre os dias 02 e 05 de novembro.
Pesquisador e especialista na teoria há mais de dez anos, ele foi um dos convidados para falar sobre o tema aos profissionais que atuam nas áreas da educação, comunicação, agentes públicos, pesquisadores e representantes de instituições sociais. Especialistas de mais de 30 países participaram do encontro que debateu novas práticas educomunicativas desenvolvidas em várias áreas de conhecimento, em todo o mundo. O jornalista também participou do encontro de pesquisadores e promotores Latino-americanos em Educomunicação, que avaliou os avanços em diversos países.
“Há mais de 20 anos a Universidade de São Paulo e profissionais da comunicação estudam esta teoria de pesquisa que trata de um novo norte científico a respeito da inter-relação entre a comunicação e educação, com focos em ampliação e melhorias dos espaços dialógicos nos conjuntos de relações sociais e apropriação e uso dos mecanismos da comunicação para facilitar estes processos. O objetivo é entender e fomentar estratégias para que agentes sociais e instituições enriqueçam os seus ecossistemas comunicacionais internos, tornando-os mais abertos, democráticos, com mais resultados efetivos. E a Universidade de São Paulo é a maior referência no mundo nas reflexões epistemológicas a respeito do tema”, explica.
Segundo ele a teoria já foi aplicada e com importantes resultados ao longo dos últimos anos e se firma em franco processo de consolidação de um novo campo de intervenção social, interdiscursivo e transdisciplinar. Ele destaca que a teoria da educomunicação tem tomado os espaços das escolas, dos movimentos sociais, empresas, nos ambientes da própria comunicação social.
“Hoje um aluno já chega na escola midiatizado, com um leque de informações fragmentadas muito grande e o professor precisa ter compreensão do processo de construção da informação para que possa ser um instrumento mediador do conhecimento, eliminando riscos de reproduzir ausência de pluralidade e diversidade. Por isso a perspectiva da teoria trata, no campo da educação, de debater quatro importantes esferas: a educação para os meios, as mediações tecnológicas, a gestão da comunicação nos espaços de socialização e aplicação e as reflexões epistemológicas do processo. É uma ação que privilegia, inclusive, a produção de mídia nestes espaços para enriquecer o processo dialógico”.
Mas como transita a comunicação pública nesta perspectiva? O jornalista explica que a comunicação nos espaços de prefeituras precisa passar por um processo de reestruturação de seu modelo de paradigma, ser melhor compreendida como ambiente de mediação e de fomento de estratégias de soluções e de emancipação dialógica entre o governo e a população.
“O que acontece é que a comunicação em muitos destes espaços se concentra naquela perspectiva funcionalista, de ambiente de salinha com uma máquina fotográfica, um computador e a missão de registrar as ações do governo. Isso faz parte do processo de assessoria de comunicação. Mas a comunicação pública é muito, muito mais do que apenas isso. Ela precisa ser vista como um bem social, que pode e deve influenciar os mecanismos e norteamentos de proposições de políticas públicas, eliminando os defeitos dialógicos entre os atores sociais e proporcionando um planejamento de gestão nestes espaços que privilegiem, além da plena ação de transparência, um modelo de ampliação de ecossistemas comunicacionais mais democrático com a população. E a Educomunicação vem suprir exatamente esta demanda, pois suas ferramentas e metodologias têm como missão eliminar ruídos entre estes atores e gerar emancipação”, relata o especialista.
Ele alerta que a falta de um espaço de comunicação nas prefeituras é um problema muito sério, já que minimiza possibilidades de interação, participação e transparência. “Hoje muitas prefeituras não contam nem com serviços de comunicação social. O que é um grave problema. E algumas, infelizmente, ainda permeiam pela perspectiva da comunicação funcionalista, de apenas ser ponte entre o gestor e a imprensa. Ou seja: os gestores – prefeitos, vereadores – precisam entender a essência estratégica da comunicação para mobilização e participação social do povo no poder público”.
Experiência
Dedoné lecionou em duas faculdades – uma delas, de jornalismo -, e ministrou aulas em disciplinas como Assessoria de Imprensa, Semiótica e Gestão de Comunicação. Hoje ele integra o corpo docente do Ensino Alpha – Instituto de Educação Superior (Pólo da Universidade Metodista), com sede em Andirá. Escreveu artigos na área, com foco de linha de pesquisa em comunicação pública na perspectiva da Educomunicação.
Mas, sua experiência ultrapassou o universo da academia e foi nos espaços da comunicação pública que vivenciou as aplicação de diagnósticos e projetos na área. Em 2005 assumiu a Assessoria de Imprensa da Prefeitura de Bandeirantes, onde buscou renortear a ótica de gestão até então empregada ao departamento.
Promoveu quatro fóruns estaduais de Educomunicação, trazendo especialistas de várias regiões do país para ministrar conferências sobre o tema na cidade, entre os quais, o professor Dr. Ismar de Oliveira Soares, da Escola de Comunicação e Arte da USP e principal teórico da educomunicação no mundo; além de Nita Freire, doutora em educação e viúva do educador Paulo Freire e a professora Dra. Cecilia Peruzzo, da Universidade Metodista. Um dos fóruns reuniu mais de mil profissionais, de vários estados brasileiros. Desenvolveu projetos de comunicação comunitária com movimentos de juventude em bairros, com grupos de idosos, ministrou fases de cursos de capacitação continuada em práticas educativas em comunicação para professores da rede municipal de ensino e cursos de comunicação para profissionais da saúde. Os projetos foram homenageados na Assembléia Legislativa do Paraná e apresentado no Fórum Social Mundial, em Porto Alegre. Após deixar a prefeitura, em 2008, as ações não deram prosseguimentos e até o departamento de assessoria de imprensa foi extinto.
Em 2015 voltou para a comunicação pública. Agora, no município de Andirá. E mais uma vez, revolucionou o papel da comunicação social no espaço do poder público. Como Secretário de Comunicação propôs a alteração do plano de gestão da pasta, criou e coordenou projetos na área e conseguiu voltar os olhares dos especialistas em educomunicação do país para Andirá, quando propôs um curso de capacitação em Educomunicação para os funcionários de todos os setores da Prefeitura, na perspectiva da teoria e prática. Uma ação que ainda não havia ocorrido em nenhum município do país, envolvendo a diversidade de setores de um governo público. A partir daí, várias ações de ampliação de ecossistemas comunicacionais começaram a acontecer, melhorando a comunicação nestes ambientes.
Essas experiências foram apresentadas pelos próprios servidores no encerramento do curso. O jornalista propôs uma articulação que resultou na aprovação de uma Lei municipal, que institucionalizou a Educomunicação na comunidade e fez com que Andirá se tornasse o segundo município do Brasil a ter uma lei municipal na área – o primeiro município foi São Paulo -. Andirá foi citada durante o congresso pelo professor Ismar de Oliveira Soares diante dos representantes de vários países do mundo pela aprovação da Lei Educom – um esforço da prefeitura, por intermédio do Prefeito José Ronaldo Xavier, numa parceria com a Câmara de Vereadores -. “O nosso empenho no Paraná foi bastante reconhecido no congresso da Unesco – USP. E isso é muito importante, pois colocamos a nossa região do Norte Pioneiro no mapa de pesquisa e ação na perspectiva da comunicação pública do Paraná. Esperamos que outras prefeituras também reconheçam a comunicação como extremamente importante no campo de vista da mobilização, interação e emancipação nas estratégias dialógicas com a sociedade”.
A nova prefeita eleita de Andirá, Ione Abib, também tem protagonizado interação com os debates e deve fazer um trabalho histórico no campo da Educomunicação, já que pautou no seu plano de governo a ampliação do apoio ao projeto, além de ações como a criação do Núcleo de Participação Popular, modernização do sistema de ouvidoria do município e de ações estratégicas de transparência pública, apoio a criação do Conselho Municipal de Comunicação Social e projetos de Comunicação Comunitária.
“Ela me ligou um dia antes de minha viagem, reiterando os compromissos de apoio ao Educom e autorizando dizer aos especialistas que Andirá será ainda mais referência na promoção de estratégias educomunicativas. A Prefeita é formada em Gestão Pública e sabe da importância estratégica da comunicação democrática”, concluiu.
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