Comunidades quilombolas e descendentes de escravizados mantêm viva a memória e a resistência negra no estado
O dia 13 de maio de 1888 entrou para a história do Brasil como a data oficial da abolição da escravidão. No Paraná, porém, a trajetória da população negra ainda permanece cercada pelo silêncio e pelo esquecimento histórico, em um estado frequentemente marcado pela imagem da colonização europeia.
Muito antes da chegada dos imigrantes, homens e mulheres negros já participavam da construção do Paraná. Foram eles que trabalharam nas fazendas, abriram estradas, atuaram nas ferrovias e ajudaram a erguer cidades inteiras — quase sempre sem reconhecimento.
Apesar do fim oficial da escravidão, a liberdade não veio acompanhada de condições dignas de sobrevivência. Sem acesso à terra, moradia, educação ou oportunidades, milhares de negros libertos acabaram abandonados à própria sorte. Enquanto políticas públicas incentivavam a imigração e a distribuição de propriedades rurais a estrangeiros, a população negra permaneceu marginalizada.
Mais de 130 anos depois, os reflexos dessa desigualdade ainda são percebidos em diversas regiões do estado.

No Vale do Ribeira paranaense, cidades como Adrianópolis e Doutor Ulysses concentram importantes comunidades quilombolas reconhecidas oficialmente. Entre elas estão João Surá, Córrego do Franco e São João, locais que preservam tradições culturais, histórias familiares e a descendência direta de negros que fugiram da escravidão há mais de dois séculos.
Nos Campos Gerais, o município de Arapoti abriga a Comunidade Quilombola Família Xavier, símbolo da resistência negra na região. O local também guarda um importante marco histórico: o antigo cemitério de escravos da Fazenda Boa Vista, considerado um dos vestígios mais significativos da presença negra no interior do Paraná.
Já no Norte Pioneiro, cidades como Curiúva, além de localidades próximas de Ibaiti, Pinhalão e Tomazina, possuem registros históricos e presença de descendentes de escravizados e comunidades negras rurais, muitas vezes esquecidas pela própria narrativa oficial do estado.

A discussão sobre a abolição também remete a outras cidades brasileiras marcadas pela escravidão. Campinas ficou conhecida como uma das cidades mais escravistas do país e é considerada por muitos historiadores como uma das últimas a extinguir a escravidão na prática. O município também se tornou símbolo dessa memória histórica ao dar destaque à data de 13 de Maio em sua urbanização, sendo lembrado por possuir uma das primeiras ruas do Brasil em homenagem à abolição.
A data de 13 de maio, portanto, vai além da assinatura da Lei Áurea. Para movimentos negros e comunidades quilombolas, ela representa também a lembrança de uma liberdade incompleta, marcada pela ausência de reparação histórica.
As correntes foram retiradas e as leis mudaram. No entanto, a desigualdade social, a dificuldade de acesso à terra, a pobreza e o abandono histórico ainda atingem grande parte da população negra brasileira.
Falar dos quilombos do Paraná não é apenas revisitar o passado. É reconhecer histórias de resistência, identidade e luta que continuam vivas até hoje — e refletir sobre uma dívida histórica que ainda permanece aberta.
Texto: Marcos Almeida


Compartilhe isso:
- Compartilhar no Facebook(abre em nova janela) Facebook
- Compartilhar no X(abre em nova janela) X
- Compartilhar no LinkedIn(abre em nova janela) LinkedIn
- Compartilhar no X(abre em nova janela) X
- Compartilhar no Telegram(abre em nova janela) Telegram
- Compartilhar no WhatsApp(abre em nova janela) WhatsApp